Brasil fica em último lugar em ranking de educação
04 Dec 2001 19:34
SÃO PAULO/WASHINGTON, 4 de dezembro (Reuters) - O Brasil ocupou o último lugar em uma pesquisa sobre o desempenho de estudantes de 15 anos de idade divulgado nesta terça-feira pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).
A pesquisa, que foi realizada no decorrer do ano 2000, avaliou a compreensão dos estudantes e sua habilidade de aplicar os conhecimentos em leitura, matemática e ciências. A leitura foi o item mais enfatizado.Ocuparam os primeiros lugares a Finlândia, o Japão e a Coréia.
Participaram da pesquisa 265 mil estudantes dos 28 países-membros da OCDE, que inclui somente países desenvolvidos, além de Brasil, Letônia, Liechtenstein e Rússia.
O México foi o único outro país latino-americano incluído, e seu desempenho ficou um pouco acima do Brasil.
Segundo o Ministro da Educação, Paulo Renato Souza, o desempenho brasileiro deve-se ao alto índice de repetência e evasão escolar ainda observados no país.
"O atraso escolar é o grande problema da educação no Brasil", disse o ministro a jornalistas nesta terça-feira ao comentar o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) em Brasília, informou sua assessoria.
Isso significa que a maioria dos jovens de 15 anos testados estava provavelmente em séries mais básicas que seus pares de outros países. Para se ter uma idéia, atualmente há um índice de repetência de 41,7 por cento entre estudantes do ensino fundamental e 59,9 por cento no ensino médio (antigo colegial).
Entre os estudantes com nove ou mais anos de escolarização, ou seja, sem atraso escolar, a média nacional chega a 431, numa escala que vai de zero a 625. Quando eles têm oito anos de estudo, a pontuação cai para 368 e com sete anos de estudo, é ainda menor, de 322.
Na média o Brasil ficou nota 396, caindo para o último lugar na lista da avaliação, que envolve 28 nações desenvolvidas e quatro emergentes: Brasil, Letônia, México e Rússia. Os estudantes da Finlândia atingiram 546 pontos.
LEITURA DEFICIENTE
Os dados sobre leitura foram os mais específicos sobre o Brasil. O sistema de avaliação dividiu o desempenho de estudantes em cinco níveis, em que o mais alto era 5 e o mais baixo, 1.
No Brasil, apenas 1 por cento dos estudantes ficou no nível 5, e 3 por cento no nível 4. O primeiro colocado na pesquisa, a Finlândia, teve 18 por cento dos estudantes no nível 5 e 32 por cento no nível 4.
Os brasileiros foram os campeões do baixo desempenho: 23 por cento não chegaram nem ao nível 1, o de conhecimentos básicos. Essa porcentagem foi de 16 por cento no México e 14 por cento em Luxemburgo.
Brasileiros que chegaram só ao nível 1 foram 33 por cento. O México, segundo pior desempenho nesse nível, teve 28 por cento.
Segundo os organizadores da pesquisa, "desempenhos abaixo do nível 1 indicam sérias deficiências na capacidade dos estudantes de usar a compreensão de texto como instrumento para a aquisição de conhecimentos".
No nível 2, de conhecimento básico, o Brasil ficou semelhante aos outros países, com 28 por cento.
A pesquisa ressalta, porém, que tanto no México como no Brasil os estudantes de 15 anos estão em uma variedade muito grande de séries, diferentemente dos outros países.
Considerando apenas o desempenho dos estudantes de 15 anos que estejam na série correta -- a 1a. série do ensino médio --, a performance de Brasil e México estaria entre a de Portugal e Rússia, ainda no terço inferior do ranking, mas mais próximos da média.
O relatório final também destacou que, apesar de 75 por cento dos estudantes brasileiros terem ficado abaixo da média de desempenho de todos os países, uma minoria de 5 por cento teve performance muito superior à média.
A prova exigiu dos alunos, principalmente, a compreensão de leitura, a partir da identificação e recuperação de informações, interpretação e reflexão. Foram apresentadas várias situações cotidianas e uma série de questões para serem respondidas de acordo com os textos.
Os resultados mostram que a tendência do estudante brasileiro é "responder pelo que acham e não pelo que efetivamente está escrito", de acordo com analistas do Pisa.
A partir de um texto que informava que "uma enfermeira virá administrar a vacina", foram oferecidas quatro opções de resposta. Apesar de a metade dos alunos ter acertado a questão, 27% erraram pois marcaram como certa a alternativa com o enunciado: "um médico aplicará as vacinas".
Para o economista Cláudio de Moura Castro, um dos analistas do resultado do Pisa, "a resposta mostra que os alunos associam vacinação com médico e não foram preparados realmente a ater-se ao que diz o texto".
Para Castro, é possível identificar que os alunos respondem de acordo com suas opiniões e preconceitos mesmo quando a pergunta é objetiva e remete ao que está escrito no texto.
"Tal forma primitiva de leitura não é compatível com a vida produtiva em uma sociedade moderna. Receitas de remédio, contratos e instruções de uso de programas de computador requerem uma interpretação fiel do texto."
O programa mostra, segundo o economista, que a escola brasileira não está ensinando seus alunos a ler um texto escrito e a retirar dele as conclusões e reflexões logicamente permitidas.
"Das mil coisas e conteúdos que a escola faz ou tenta fazer, o Pisa está nos mostrando que ela se esquece da mais essencial: dar ao aluno o domínio da linguagem."
Em matemática, os estudantes japoneses foram os primeiros colocados. Coréia, Nova Zelândia, Finlândia, Austrália, Canadá, Suíça e Reino Unido também ficaram nas primeiras colocações.
Em ciências, a Coréia e o Japão empataram em primeiro lugar. Finlândia, Reino Unido, Canadá, Nova Zelândia e Austrália ficaram logo atrás.
O Brasil ficou na última colocação em ambas as matérias.
Os estudantes norte-americanos ficaram na média, quando comparados aos outros de países industrializados -- um resultado que desapontou o secretário de Educação dos EUA, Rod Paige.
"Infelizmente estamos na média, em comparação a outras nações industrializadas. Na economia global, esses países são nossos concorrentes -- estar na média não é suficiente para os adolescentes dos Estados Unidos", afirmou Paige numa declaração.
MENINOS, MENINAS E EUA
O estudo revelou haver uma grande diferença entre os estudantes de diferentes escolas e grupos socioeconômicos, principalmente nos Estados Unidos.
O vice-diretor de Educação da OCDE, Barry McGaw, disse aos repórteres em Washington que não havia uma razão única para explicar por que algumas escolas ou países apresentaram melhores resultados.
O que o estudo descobriu, disse ele, foi que em países onde há muita segregação e desigualdade social os estudantes tendem a ir pior.
Outra descoberta importante foi que, em todos os países, as meninas foram melhor que os meninos nos testes de leitura, e os meninos se deram melhor em matemática em grande parte dos países.
Além disso, em todos os países, sem exceção, pelo menos 5 por cento dos estudantes ficaram no nível 1 ou abaixo em leitura, ou seja, sempre há uma parcela desfavorecida, mesmo nos países campeões.
Participaram da pesquisa: Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, República Tcheca, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Islândia, Irlanda, Itália, Japão, Coréia, Luxemburgo, México, Nova Zelândia, Noruega, Polônia, Portugal, Espanha, Suécia, Suíça, Reino Unido, Brasil, Letônia, Rússia, Holanda, EUA e Liechtenstein.
Fonte:
Reuters