República Paulista
Eleição presidencial do Brasil reflete o poder de São Paulo
Larry Rohter
The New York Times
Em São Paulo (Brasil)
O restante do país pode não gostar muito, mas pela primeira vez na história do Brasil uma eleição presidencial chegou a este quadro: dois candidatos de São Paulo, representando partidos que foram criados em São Paulo e que têm maior apoio em São Paulo, lutando para suceder um presidente que é de São Paulo.
Com uma população de 38 milhões de habitantes, pouco mais do que a da Califórnia, São Paulo é de longe o estado mais populoso e próspero do Brasil. Mas durante grande parte do século passado, um dos temas da política brasileira era como impedir São Paulo de dominar o governo tanto quanto dominava a economia.
Apesar do Rio de Janeiro ser mais conhecido fora do Brasil, "São Paulo é o verdadeiro centro de gravidade" do maior país da América Latina, disse Fernando Limongi, diretor do Centro Brasileiro de Análise e Pesquisa daqui. "Mesmo agora, há temor e ressentimento em relação à São Paulo e seu tremendo peso, que lobbies poderosos de estados menores e mais pobres estão sempre tentando limitar".
Tão logo Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente em 1994, se tornando o primeiro político de São Paulo em uma geração a ocupar o cargo, houve resmungos instantâneos de que o Brasil estava se tornando a "República Paulista". Independente de quem vença o segundo turno eleitoral em 27 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores de esquerda, ou seu rival, José Serra do centrista Partido da Social Democracia Brasileira, tais queixas provavelmente continuarão.
Como José Genoino, o candidato ao governo de São Paulo pelo Partido dos Trabalhadores, colocou quando iniciou sua campanha para o segundo turno na semana passada, "São Paulo é um estado e um país" que nenhum brasileiro pode ignorar. Se São Paulo fosse independente do Brasil, sua população e produto interno bruto superariam os da Argentina e da Colômbia, os países mais populosos e as maiores economias da América do Sul depois do Brasil.
São Paulo responde por mais de um terço do produto interno bruto do Brasil, uma situação que no passado levou alguns líderes empresariais daqui a se queixarem de que seu estado é "uma locomotiva puxando 26 vagões vazios". Café, laranja e soja são cultivados no interior próspero; a quarta maior fabricante mundial de aeronaves, a Embraer, fica no estado, assim como o principal instituto de mapeamento genético fora dos Estados Unidos.
Mas a verdadeira locomotiva da economia é a São Paulo metropolitana, que nos últimos 130 anos experimentou "o mais rápido índice de crescimento a longo prazo de uma cidade grande na experiência humana", disse Norman Gall, diretor executivo do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial daqui. De 31 mil habitantes em 1870, a cidade e seus subúrbios cresceram para os atuais mais de 18 milhões, tornando a Grande São Paulo a terceira maior área urbana do mundo atrás de Tóquio e da Cidade do México, segundo dados das Nações Unidas.
Apesar de gerar mais de um quarto da arrecadação de impostos do Brasil, segundo um estudo do instituto, a cidade recebe de volta menos de 10 centavos para cada dólar que paga, o que dificulta a construção das escolas, estradas e hospitais necessários.
Como Nova York, a moderna São Paulo, tanto a cidade quanto o estado, foi construída em grande parte pelos imigrantes e deve sua personalidade cosmopolita e eles. Tanto Serra quanto Lula são produtos deste processo, apesar de representarem duas correntes bem diferentes.
Um economista de 60 anos, Serra foi senador e deputado representante de São Paulo no Congresso antes de se tornar ministro do governo Fernando Henrique Cardoso. Seu pai emigrou da Itália e acabou dono de uma pequena barraca de frutas em Santos, o movimentado porto que exportava grande parte do café que foi a fonte da riqueza de São Paulo.
O afluxo de imigrantes começou com a abolição da escravatura em 1888, que exigiu novas fontes de mão-de-obra. Os paulistas se gabam de São Paulo ter mais descendentes de japoneses do que qualquer outra cidade fora do Japão, mais descendentes de sírios-libaneses do que qualquer outra cidade fora do Oriente Médio, e mais descendentes de italianos do que qualquer outra cidade fora da Itália.
Lula, por sua vez, faz parte de uma vasta e mais recente migração interna, que é o equivalente brasileiro aos negros pobres do campo que se mudaram do Mississippi para Chicago em busca de trabalho nas fábricas. Ele nasceu em uma família de meeiros no pobre estado de Pernambuco, mas chegou aqui como um menino de 7 anos depois que seu pai arrumou emprego nas docas de Santos.
Como milhões de outros que vieram para cá do Nordeste do Brasil, Lula carregou o estigma de ser "pau de arara", assim chamado porque os migrantes faziam a jornada de 3.200 quilômetros empoleirados na carroceria dos caminhões. Mas apesar de ter cursado apenas até a quinta série, ele foi capaz de encontrar emprego no cinturão industrial ao redor de São Paulo, e eventualmente se tornou um torneiro mecânico, um líder do sindicato dos metalúrgicos e fundador do Partido dos Trabalhadores.
"Somente em São Paulo alguém como Lula poderia emergir", disse Ruy Mesquita, editor de O Estado de São Paulo, o principal jornal do estado. "Esta é uma das sociedades que possui mais mobilidade que você pode imaginar".
Todavia, as raízes de Lula no Nordeste ajudam a torná-lo mais aceitável que Serra para os eleitores e líderes políticos de outras regiões. "Um dos problemas de Serra é que ele é visto como paulista demais em suas posições políticas, tentando controlar a redistribuição de renda de São Paulo para o Nordeste", disse Limongi, o analista político.
Hoje, mais de um em cada cinco eleitores brasileiros é paulista. Mas o estado tem apenas dois terços do número de cadeiras no Congresso a que teria direito se o princípio de um eleitor, um voto, fosse aplicado rigidamente.
"Esta tem sido uma característica permanente e fonte de tensão na vida brasileira desde o Império" do século 19, disse Luiz Werneck Viana, um sociólogo que escreveu extensamente sobre as diferenças regionais neste país de 175 milhões de habitantes. "Os paulistas podem chorar a respeito, mas o Brasil existe como nação unificada apenas porque foram encontradas formas de compensar os estados menores pelo que careciam, e isto ocorreu às custas de São Paulo".
No passado, a insatisfação local até mesmo levou à revoltas contra o governo central. Em 1932, por exemplo, o ressentimento em relação à decisão do ditador Getúlio Vargas de apontar um oficial para substituir um governador eleito, enfraquecendo assim a primazia política tradicional de São Paulo, levou à uma revolta que foi dominada apenas após um cerco de três meses seguida por anos de políticas discriminatórias.
"A meta de Getúlio Vargas era anular o poder político de São Paulo", disse Mesquita, o editor, cujo pai foi um dos principais líderes da resistência.
Ele acrescentou: "São Paulo reagiu, apenas para ver a mesma coisa acontecer durante a ditadura militar" que governo o Brasil de 1964 até 1985.
Os generais que governaram o Brasil durante aqueles anos vieram na sua maioria, como Vargas, do estado mais ao sul do Brasil, o Rio Grande do Sul. Para diluir o poder de São Paulo, onde a oposição ao governo deles era mais forte, eles criaram novos estados, estabeleceram um teto ao número de representantes que qualquer estado podia ter no Congresso e concederam a cada estado, independente de quão pequenos, um mínimo de quatro deputados (um número que posteriormente foi elevado para oito). Mas o dr. Werneck Viana sugere que o estado é uma força indomável destinada a ter um papel cada vez maior na vida política e intelectual do Brasil.
"Apenas a coerção pode inibir isto, e nós já vimos que a coerção não funciona", disse ele. "Em uma sociedade aberta, São Paulo, como principal ponto de modernidade no Brasil, sairá vitoriosa de novo e de novo".
